Bloco Afro Pretinhosidade: cultura negra em Curitiba

Iniciando o projeto “Outras Narrativas Curitiba”, que busca conhecer histórias não contadas sobre a cidade, vou falar de algo muito bom chamado carnaval de resistência.

Tô muito feliz em começar o projeto falando sobre o Bloco Afro Pretinhosidade, conheci o bloco no mês passado. É um bloco novo, iniciou oficialmente em 27 de janeiro de 2018, data do primeiro ensaio. Feliz porque me animou pra vivenciar o carnaval nesta cidade fria e  feliz por ser um bloco afro no sul do país. Além de corajoso, muito necessário.

Bom, nesse domingo, dia 03 de fevereiro de 2019 rolou o segundo cortejo de pré carnaval do Pretinhosidade no centro de Curitiba, com a clássica concentração na Praça Santos Andrade, com direito a chuvona e consequentemente atraso, mas nada que atrapalhasse a festa. A chuva passou e aos poucos as pessoas começaram a chegar; a kombi de som do bloco chegou, o mestre de bateria também.

Conversei com as integrantes e responsáveis pelo bloco, Cláudia Maria Ferreira e Angela Maria, e elas me contaram que o Pretinhosidade surgiu também para quebrar o estereótipo de uma Curitiba européia, sem negros, totalmente branca. A ideia de um bloco afro foi  tomando forma entre almoços de famílias, de “negros em movimento” como disse a Claudia, pessoas que militam nos mais diversos lugares e tinham vontade de fazer uma manifestação em prol da cultura negra na cidade.

Durante esses almoços, os familiares e amigos foram construindo o Pretinhosidade, a partir diversos questionamentos, como por exemplo, a falta de valorização da cultura negra em Curitiba e no carnaval, de ter um bloco que falasse sobre a cultura negra não apenas para o conhecimento das pessoas em geral, mas como forma de alimentar eles próprios. Isso faz todo sentido, é assumir a narrativa da nossa própria história. É querer propagar a cultura e também usufruir dela.

“É no rufar dos tambores, no estalar do timbal.

Vamos mostrar pra esse povo como é nosso carnaval.”

(trecho de um dos cantos do Pretinhosidade)

O bloco é majoritariamente de pessoas negras e de periferias, como Vila Torres, Tatuquara, Colombo. Angela Maria, coordenadora do bloco, contou que as pessoas sempre perguntam para ela e pra os outros integrantes do bloco se eles são de fora, da Bahia… “Nós existimos sim, nós moramos aqui, nascemos aqui, nossos filhos nasceram aqui”, disse. Isso mostra muito sobre como a população negra é invisibilizada ao ponto se serem considerados estrangeiros no seu próprio território. Eu também não acredito que a cidade faça algo para reverter essa visão distorcida que os curitibanos e as pessoas de outros estados tem em relação a este espaço. São poucos os lugares que fazem menção a história dos negros na capital e quando fazem são pequenas e pouquíssimo valorizadas e divulgadas.

É muito mais comum ouvir falar de colônias de portugueses, poloneses, alemães e que as pessoas daqui são descendentes desses lugares. Existem referências que exaltam, explicam, têm até bairros que são só sobre a cultura de determinados países. Por todos os lados de Curitiba existem referências à outros povos, mas o mesmo não ocorre em relação ao povo negro, por exemplo, na praça Santos Andrade tem uma placa que apenas diz: “Câmara Municipal de Curitiba a Colonia Afro-Brasileira 100 anos.” As referências são poucas e comparativamente são nada.

Mas, voltando ao bloco além valorização da cultura negra, o Pretinhosidade também é sobre a cultura de periferia, que também é estigmatizada. O primeiro desfile de pré carnaval desse ano foi na Vila Torres, bairro de origem do Pretinhosidade. O bloco tem parceria com a ONG Passos da Crianças que cede um espaço ensaios em dias de chuva (o bloco prefere ensaiar na rua, porque isso envolve a comunidade. Aliás, os ensaios e a concentração ocorrem em frente ao bar do Zé Cordeiro), algumas crianças da ONG também tocam na bateria no bloco. Parte dos instrumentos são cedidos pela Rede de Mulheres Negras do Paraná, Afro Cor e Passos das Crianças.

Sobre o cortejo de domingo, foi uma  apresentação muito afetuosa, rolou pintura corporal, abraços, ajustes dos instrumentos, agradecimentos aos Orixás. O desfile foi muito alegre e forte, algo muito ancestral. As puxadoras bradando ”Curitiba preta”, abrindo o caminho na rua e na história. Ver o Pretinhosidade desfilar foi também uma confirmação de que há sim muito para descobrir em Curitiba, mas sob um outra perspectiva. Por ora é isso, vida longa ao Pretinhosidade.

 

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